Momento de transformação abre portas
Consignado privado representa oportunidade para as fintechs de crédito 09/12/2019 10:04
» Ramires Paiva
Autor: Ramires Paiva

Nem todo mundo sabe, mas o crédito consignado também pode ser concedido aos colaboradores das empresas privadas com carteira de trabalho assinada. Nos últimos tempos, essa modalidade vem registrando o maior crescimento. De acordo com dados do Banco Central, o volume acumulado de empréstimo consignado para trabalhadores CLT do setor privado chegou a quase 22 bilhões de reais em 2019. Somente em julho, o crescimento foi de 12,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Ainda que o desempenho esteja em alta, há muito espaço para esse mercado evoluir. Como base de comparação, o acumulado do consignado para servidores públicos ficou bem próximo, também em julho, dos 207 bilhões de reais, e o do INSS ultrapassou os 135 bilhões de reais.

O empréstimo consignado constitui uma operação de crédito cujo pagamento é descontado diretamente - em parcelas mensais fixas - da folha de pagamento do servidor público ou do trabalhador da iniciativa privada. No caso do INSS, o desconto é sobre o benefício recebido. A consignação em folha de pagamento ou de benefício depende de autorização prévia e expressa do cliente da instituição financeira credora. O desconto máximo autorizado pela lei é de 35%. A legislação também estabelece que não cabe ao empregador aceitar ou recusar o consignado. Ele não tem opção de escolha. A solicitação formal do empregado obriga a empresa a prestar à instituição financeira as informações necessárias para a contratação do crédito.

Claro que o objetivo do legislador não foi colocar empregado e empregador em rota de conflito. O que se espera é que as próprias empresas reconheçam a importância de oferecer o consignado privado aos seus funcionários. Afinal de contas, trata-se de um dos menores juros cobrados sobre o crédito, já que a renda certa do salário diminui os riscos de não pagamento, permitindo ao credor oferecer um empréstimo mais barato. E possibilitando à pessoa que pede empréstimo trocar suas dívidas caras por uma mais barata, que caiba no orçamento familiar.

As taxas são em média de 3,15% ao mês. No cheque especial, a realidade é outra, com taxas médias de 12,69% ao mês. Apesar desse custo elevado, o uso do cheque especial é alto por causa da facilidade de contratação. Estudo realizado no começo de setembro pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) em parceria com o SPC Brasil revelou que dois a cada dez brasileiros recorreram ao cheque especial em algum momento nos 12 meses anteriores à pesquisa.

O setor financeiro passa por um momento de transformação, com a ascensão das fintechs de crédito. Em 2016, o volume de crédito concedido por elas era de 161 milhões de reais. Dois anos depois, passou a ser de 1,195 bilhão de reais. Esses números fazem parte do primeiro raio-x das fintechs de crédito brasileiras elaborado pela ABCD em parceria com a PwC Brasil. O estudo mostrou que o consignado está entre as principais modalidades de crédito oferecidas às pessoas físicas, com 14% das respostas, mas ainda distante do empréstimo sem garantia, que esteve em 42% das respostas fornecidas pelas 43 fintechs participantes - 21 delas associadas à ABCD.

No consignado privado especificamente, há um desafio que deve ser superado para que as fintechs de crédito aumentem sua participação. A falta de conhecimento sobre as opções do mercado atinge não apenas os empregados como também os empregadores.

Muitos trabalhadores não sabem que podem utilizar seu salário como garantia do empréstimo, o que, como vimos, resulta em juros menores sobre o crédito contratado. Sem contar a facilidade de descontar automaticamente o pagamento todo mês, contribuindo assim com o planejamento financeiro por evitar que o dinheiro seja gasto em finalidade diferente.

Ao mesmo tempo, as empresas não se conscientizaram de que oferecer um crédito mais saudável aos seus funcionários é um benefício que colabora com a saúde e com a produtividade deles. Um levantamento feito por John Gathergood, da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, analisou a saúde mental e financeira de aproximadamente 10 mil pessoas e concluiu que as pessoas endividadas ficam constrangidas diante de colegas, bem como desenvolvem fobias e insônia. Como resultado disso, elas sofrem redução da sua capacidade social e de concentração. Algumas empresas consideram que, se oferecerem o consignado privado, estimularão o endividamento. Na realidade, estão garantindo que, em caso de dificuldade financeira ou de necessidade do empréstimo para realização de um objetivo de vida, seus funcionários contratem uma das modalidades mais baratas. Essa iniciativa pode evitar que os colaboradores paguem caro por um empréstimo a ponto de comprometer a capacidade de pagamento.

Ramires Paiva é VP de consignado privado da Creditas.
Matérias Relacionadas

Compartilhe

Twitter Facebook Linkedin
Mais Lidas
Total de vídeos: » 1.253
http://www.portalcreditoecobranca.com.br